Essa noite preparei o café mais amargo.
Nos armários da cozinha, o ódio, o medo, o horror, já estavam todos lá.
O que fiz foi coar tudo numa meia velha e furada.
A água estava quente o suficiente pra derreter as pedras geladas de vingança.
Enquanto a alquimia reversa era feita, uma fumaça tomou conta da cozinha e me cegou…
Mas eu percebi que já estava cega desde muito antes,
A fumaça só me fez arder os olhos, me lembrar que eles ainda estavam lá, apesar de não verem mais nada, nem ninguém…
Abri a janela… o café ficou pronto.
A gosma negra ficou muito bonita na xícara de porcelana que ganhei antes de nascer, contemplei-a.
O cheiro me invadiu as narinas e me deixou tonta, torpe.
Tomei tudo de uma vez.
E para o meu espanto, gostei.
Todo o mal do mundo em uma xícara de café.
Todo amargo de mim escorreu-me da cabeça à ponta dos pés.
A escuridão da noite, do café e do mundo
foi toda parar dentro da minha cabeça.
Um mar de dor me afogou, me matou.
E toda a paz se instalou em mim.
Nada mais importa, nem o mundo, nem ninguém…
O vento que passava me deitou no chão,
E meu corpo refletia, no centro da cozinha,
À luz da lua, a beleza da morte.
O fim tão esperado, tão aguardado,
foi me dado em uma xícara de café.
Um último brinde, um último café,
aos viajantes dessa vida!
Enquanto ainda estiverem de pé,
boa lida!