•January 9, 2010 • Leave a Comment

Não sei quanto tempo se passou desde então, apenas vi aquela criatura empaliceder cada vez mais. Toda a cor de suas faces desapareceu como sangue que escorre pelo ralo, seus olhos derramavam-me o frio da noite, sua boca seca abriu-se e uma voz rouca me ameaçou:
“Eu acho melhor você existir, tá me entendendo?”
As imagens foram desvanescendo ao redor e só me sobraram aqueles olhos cinzas, restos de um fogo anterior que queimara tudo e que deixara somente vestigios, ruínas.

Mas o que era aquilo que o espelho me dizia? Que imagem era aquela que se parecia tanto comigo mas não era eu? Ou será que era?
A fumaça que saia daqueles olhos deixou tudo desforme e quando a tosse passou voltei a fitar o espelho… imagem nenhuma.
Onde foram parar aqueles olhos tão ameaçadores mas que era tudo que eu tinha?

Aos poucos a fumaça se foi (talvez junto com meu pulmão) e a figura, cada vez mais perto, cada vez mais nítida, aproximou seus lábios gélidos dos meus.

Não sei quanto tempo durou tudo isso, sei que meus olhos se fecharam, senti meus lábios queimarem e, como um veneno que se espalha rapidamente, queimou o corpo todo.

Quando abri os olhos, a fumaça se dissipara (como se nunca estivesse de fato lá) e uma imagem límpida no espelho me olhava ternamente com seus olhos totalmente negros e um sorriso nos lábios, agora muito rubros. A cor voltara-lhe ao rosto, era uma bela e corada figura.

Não sei bem quanto tempo durou…

Hum… não sei…

Um segundo

•January 8, 2010 • Leave a Comment

E eu acabei me deixando cair na eternidade de um segundo de silêncio. Centenas de décadas se passaram em um piscar de olhos.
Volto sem saber pra onde, com esse texto de não sei o quê.
Dedico os sons ao nada. ao nada, nada.

Fico com os ecos que sobraram em minha boca, que mesmo fechada grita milhões de palavras trôpegas, palavras que cederam ao peso do silêncio que se alojou em meus descorados lábios.

O silêncio quente e confortável que eu tinha conseguido achar começou a precionar minha garganta com uma força esmagadora que me extraiu um grito forçado, sem graça, esganiçado, inaudível aos transeuntes que sempre passam correndo e nunca percebem nada.

(AH!) Eu confeço: muitas vezes sou uma transeunte apática a tudo.

Passageira de um trem que eu mesma construi: uma locomotiva que caminha sob os ossos das minhas vértebras e que quando alcança a estação nervosa todos os passageiros desembarcam em uma explosão elétrica.

Sou passageira de mim mesma, mas não quero chegar ao fim da linha (às vezes não tenho tanta certeza disso). Sempre tomo um atalho contrário ao destino certo. Tentando sempre desviar das explosões inevitáveis.

E o resultado dessas explosões é um frio incerto e insidioso, um frio que se espalha rapidamente por todo corpo; apenas em um instante de choque, uma torrente de palavras escorre por todos os poros transformando um big bang em apenas suor. Um frio insuportavelmente quente.

[explosão]

O mundo caiu em um segundo de silêncio.

(me pergunto quando será a hora de abrir os olhos de novo…)

E passado o segundo interminável é a hora do ponto final, mas esse texto vem do nada e nada tem. Todo ele se passou em apenas um segundo e talvez nem tenha realmente acontecido.

Acho que a tempestade se aproxima. (mais uma vez)

O que que é isso???

•January 8, 2010 • Leave a Comment

Je ne sais pas!!!

Bem… Parece que todas as perguntas têm sempre a mesma resposta. Mas pra falar a verdade, eu não sei muito bem…

Por favor…

•November 10, 2009 • Leave a Comment

Dá-me forças, oh noite!
É tudo que peço neste momento
Além de um pouco de silêncio.

É esse o gosto do vazio, então?
É esse o gosto da solidão?

Dá-me palavras, oh Lua!
Porque as minhas já se foram…
E só me sobraram essas últimas…

Sei que outras palavras petulantes virão,
mas sinto que não são minhas, nunca são…

Ah, não!
O silêncio que pedi já foi corrompido…
Desculpe a insistência, mas peço mais uma vez:
Dá-me um pouco de silêncio!

???

•November 9, 2009 • Leave a Comment

Por que que está tudo girando?
Por que que está tudo tão confuso?

Pra que tanta dor?
E cadê esse tal amor?

Pra que tantas dúvidas?
pra que tantas rugas?

Não sei
Não entendo
Não consigo mais escrever…

só sei que dói…
oh! se só doesse essa carne já podre…
mas não sei mais…
dói em todo lugar…

Por que esses meus olhos ainda ousam abrir-se?
Por que eles insistem em queimar?
Está tudo tão quente, mas mesmo assim sinto um frio interminável… uma fome voraz que me devora o estômado…

Sinto a vida escorrer por entre esses dedos enferrujados…
Sinto ela escorrer por entre esse corpo amargo

Pra falar a verdade já não sinto nada…

nada…
tudo….
nada…

é quase a mesma coisa, não?
Ah, sei lá!

já é hora de terminar o texto?
ah, leitor fantasma, se quiseres terminar essa leitura inútil podes ir para casa e deitar-se…

mas esse meu texto é eterno e sem sentido…

é… você está certo… já é hora de terminar…
o texto? a vida?

eu coloco esses meus olhos marejados ao vento,
mas eles não secam…
são eternas fontes de dor…

mas… mas… mas…

ah… sei lá…

antes que o efeito dos entorpecentes passe:
digo o mais sincero boa noite!

Que pelo menos no sonhos sejas feliz!

FIM!

Queimando…

•October 30, 2009 • Leave a Comment

Já é noite
é sempre assim
o dia vem e vai
mas pra mim
é sempre noite

Estou sozinha
neste porão escuro
Para cada lado que viro
dou de cara com um muro

Há uma última vela,
e uma chama trêmula
prestes a se apagar…

Olhando para o fogo
vejo a vida que queima,
vejo que estou à beira
de um eterno e profundo abismo…

O vento faz tremer essa tênue chama…
E esse abismo petulantemente me chama…
enquanto isso a vida queima
Queima-se o fio da vida…

quanto maior [mais intenso, mais denso] é o fogo
mais rápido ele se acaba…
a chama consome a cera
e a escuridão ocupa o todo

Pois eu digo então:
Que queimem logo tudo!
Que se acabem todas as velas,
todas as vidas,
tudo que há nelas!

Voltemos a escuridão!
Pulemos nesse abismo,
meu invisível amigo,
[meu fiel fantasma]
venha deitar-se comigo
nesse meu eterno leito!
[oh! dê-me calma!]

A chama já está quase no fim
ela treme como meu corpo
treme como a vida, enfim…

Fecho os olhos:
o tempo passou.
Um último suspiro:
a chama se apagou.

Bonsoir…

•October 15, 2009 • 1 Comment

queria poder escrever tudo
queria viajar pelo mundo
queria assistir a todos os filmes
queria ler todos o livros

queria ter saído mais
queria ter conhecido mais gente
queria ter amado mais
queria ter sido mais inteligente

queria dormir
queria voar
queria sair
queria cantar
queria esquecer
queria ser

queria respirar tão forte até estourar meus pulmões
queria abraçar o mundo com minhas costelas
queria me dissipar no ar, voar e me juntar às estrelas
queria me d i s s o l v e r n o m a r . . .

queria descansar…
queria… queria… queria…

mas o tempo insiste em passar, em me assustar…
Deixo, então, minhas últimas palavras rabiscadas neste pedaço de pele, minha última lista… queria fazer tanta coisa… queria ter realmente vivido…

Daqui de cima desse precipício, sinto o vento me desequilibrar, me beijar a nuca e me sussurrar:
Pula!
Voa, minha pobre criatura!
Já é hora de se libertar…
Voa!

Agora nada mais quero…
nada mais espero…
me despeço…
bonsoir…

Casa suja, chão sujo.

•October 5, 2009 • 1 Comment

A casa está suja.
As paredes completamente brancas estão sujas.
Os móveis alinhados estão sujos.
Meus olhos estão sujos.

A casa treme.
A madeira envernizada do chão range.
Os grilos lá fora cantam.
Os gritos aqui dentro não se calam.

A casa está suja.
O chão está sujo.

O branco das paredes cega,
mas não consegue esconder a angústia empregnada na casa,
a dor que encarde os cantos da sala.

A casa brilha, mas continua suja.
O piso e o teto confidenciam entre si
e guardam entre suas madeiras brilhantes
os gritos e ecos do último instante.

São espelhos dentro de espelhos
que escondem os rostos, os gritos,
tudo aquilo que já passou e já sujou
os tijolos e as paredes desta casa.

A casa está suja.
O chão está sujo.
Sempre estarão.

casa suja, chão sujo.
casa suja chão sujo
casasujachãosujo…

A Midsummer Night’s Dream

•September 27, 2009 • Leave a Comment

I’ll put a spell on you
You fall a sleep
When I put a speel on you
And when I wake you I’ll be first thing you see
And you’ll realise that you love me

[Strange and beautiful - Aqualung]

Último café

•September 27, 2009 • Leave a Comment

Essa noite preparei o café mais amargo.

Nos armários da cozinha, o ódio, o medo, o horror, já estavam todos lá.
O que fiz foi coar tudo numa meia velha e furada.
A água estava quente o suficiente pra derreter as pedras geladas de vingança.

Enquanto a alquimia reversa era feita, uma fumaça tomou conta da cozinha e me cegou…
Mas eu percebi que já estava cega desde muito antes,
A fumaça só me fez arder os olhos, me lembrar que eles ainda estavam lá, apesar de não verem mais nada, nem ninguém…

Abri a janela… o café ficou pronto.

A gosma negra ficou muito bonita na xícara de porcelana que ganhei antes de nascer, contemplei-a.
O cheiro me invadiu as narinas e me deixou tonta, torpe.

Tomei tudo de uma vez.
E para o meu espanto, gostei.
Todo o mal do mundo em uma xícara de café.
Todo amargo de mim escorreu-me da cabeça à ponta dos pés.

A escuridão da noite, do café e do mundo
foi toda parar dentro da minha cabeça.
Um mar de dor me afogou, me matou.
E toda a paz se instalou em mim.

Nada mais importa, nem o mundo, nem ninguém…

O vento que passava me deitou no chão,
E meu corpo refletia, no centro da cozinha,
À luz da lua, a beleza da morte.

O fim tão esperado, tão aguardado,
foi me dado em uma xícara de café.

Um último brinde, um último café,
aos viajantes dessa vida!
Enquanto ainda estiverem de pé,
boa lida!