Não sei quanto tempo se passou desde então, apenas vi aquela criatura empaliceder cada vez mais. Toda a cor de suas faces desapareceu como sangue que escorre pelo ralo, seus olhos derramavam-me o frio da noite, sua boca seca abriu-se e uma voz rouca me ameaçou:
“Eu acho melhor você existir, tá me entendendo?”
As imagens foram desvanescendo ao redor e só me sobraram aqueles olhos cinzas, restos de um fogo anterior que queimara tudo e que deixara somente vestigios, ruínas.
Mas o que era aquilo que o espelho me dizia? Que imagem era aquela que se parecia tanto comigo mas não era eu? Ou será que era?
A fumaça que saia daqueles olhos deixou tudo desforme e quando a tosse passou voltei a fitar o espelho… imagem nenhuma.
Onde foram parar aqueles olhos tão ameaçadores mas que era tudo que eu tinha?
Aos poucos a fumaça se foi (talvez junto com meu pulmão) e a figura, cada vez mais perto, cada vez mais nítida, aproximou seus lábios gélidos dos meus.
Não sei quanto tempo durou tudo isso, sei que meus olhos se fecharam, senti meus lábios queimarem e, como um veneno que se espalha rapidamente, queimou o corpo todo.
Quando abri os olhos, a fumaça se dissipara (como se nunca estivesse de fato lá) e uma imagem límpida no espelho me olhava ternamente com seus olhos totalmente negros e um sorriso nos lábios, agora muito rubros. A cor voltara-lhe ao rosto, era uma bela e corada figura.
Não sei bem quanto tempo durou…
Hum… não sei…
