Para você, pedaço de mim.

Um sussurro suave vem, no meio dessa noite nem tão fria nem tão quente somente escura, um sussurro atravessa meu sono já mole e cansado de tanto ser molestado, cansado de todo dia ser violado por um estremecer sonoro.

É difícil acostumar aos tropeços da vida. Difícil e provocador, mas é assim que a vida dever ser, eu acho. Porque se a gente começa a se acostumar demais com essa barulheira toda, essa algazarra, principalmente interna, e toda essa bagunça se tornar corriqueira e sem importância (e na verdade não tem importância mesmo) é como se estivéssemos perdendo algo, deixando partes pelo caminho. A tempestade e a calmaria não têm mais diferenças entre si e se acostumar é o mesmo que desistir. Por isso é difícil se acostumar…

Acostumar-se é deixar que te batam na cara, que te arranquem o que é caro e mesmo assim abstrair e esperar a próxima pancada. Acostumar-se é mais triste que doer, é mais penoso do que deixar a doença, a peste, se apoderar de você, pois não há mais nada que você queira tentar para combatê-la.

A aceitação pode ser uma forma de defesa, mas aceitar que o tudo ao redor repouse nas suas costas e você, com as pernas já tortas de aguentar tanta dor e não reclamar, simplesmente aceita… ah! não posso! Não entendo como você, parte de mim tão forte, consegue se entregar a tudo assim. Eu quero te ajudar, mas parece que esses teus olhos cansados, meio abertos, meio fechados, já se acostumaram com meus gritos também. E por mais que eu venha te acordar no meio dessa madrugada morna e escura você não se preocupa, apenas acorda, boceja e obedece.

Eu tenho uma inquietação que não basta, que não se acalma.

E toda essa minha gritaria no meio da noite é para te acordar,

É para tentar te tirar desse marasmo doentio, peste na alma.

Eu convido-te, minha cara parte amargurada: vamos Voar…

Eu não te culpo, pois se essa é a sua face eu também tenho que me curvar ao triste destino de me acostumar com ela. E não estou dizendo que ela seja feia, mas causa pena. Sabe, pedaço meu, tenho que me acostumar com você, com essa suas mãos calejadas, com esses seus olhos cansados. Mas não pense que eu repousarei ao seu lado com uma pá na mão cavando minha, ou melhor, nossa cova. Não, estarei ao seu lado como sempre: pulando. Estarei te mostrando minha face ardente, aquela que você também já se acostumou. E também mostrarei meus dentes. Porque, meu pedaço de alma cansado, também sou parte de ti e é congelar meu sangue ver sua cabeça pender para cima e para baixo, consentindo.

Não!

Dou-te essa palavra hoje de presente. E use-a. Nem que seja ao menos uma vez, use-a.

Oh! Pedaço amassado de mim, comprimido por aceitações inúmeras, desejo-te boa noite! E desejo-te também um bom dia, pois já é hora de despertar.

~ por bluemoon em agosto 3, 2010.

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